Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

24 de abr de 2015

O homem e a máquina, por Gabriel Novis Neves

O homem e a máquina 
O avanço extraordinário da tecnologia nos últimos anos me levou a escrever artigos dizendo que a máquina tinha, finalmente, vencido o homem. 
Com o desastre do avião alemão nos Alpes franceses e a divulgação dos resultados das primeiras investigações, mudei meu conceito. 
O homem venceu a máquina ao derrubar o mais pesado que o ar, e que voa com toda segurança apoiado na mais moderna tecnologia. 
Após o atentado terrorista de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas em Nova York, os técnicos em segurança de voo blindaram a porta de acesso à cabine dos pilotos - ela só poderia abrir por dentro. 
Pelas informações até agora recebidas, o copiloto, em um momento de total insanidade mental, e aproveitando por minutos a saída do comandante da cabine da aeronave, fechou e travou a porta blindada e desligou o piloto automático. 
Com o mancho nas mãos embicou para baixo o Airbus A320 em direção às montanhas do território francês, não atendendo aos apelos do comandante para entrar na cabine de comando. 
Era o homem vencendo a tecnologia. 
Como explicar um ato em que cento e quarenta e nove passageiros e tripulação são cruelmente sacrificados? 
As vítimas - dezenas de crianças, estudantes, trabalhadores e idosos - tiveram suas vidas ceifadas por um ato que traumatizou o mundo. 
O desventurado jovem piloto de há muito trabalhava em “morte cerebral” sem que ninguém percebesse, aguardando o instante ideal para concretizar a sua morte física. 
Os instrumentos do avião não registraram nos momentos que antecederam ao choque com a montanha nenhum sinal que revelasse alterações das suas funções vitais, como distúrbios da respiração, pulso e pressão arterial. Tudo aconteceu em silêncio total. 
Nenhuma mensagem ou uma palavra sequer, afastando a hipótese de suicídio, que é sempre um ato solitário. 
Com certeza novas medidas de segurança serão adotadas nas máquinas voadoras, mas, o que necessitamos mesmo é de monitores para entenderem o nosso ainda indecifrável cérebro.

23 de abr de 2015

Mitômatos, por Gabriel Novis Neves

Mitômatos 
Assim são conhecidos os viciados em mentira, ou seja, quando esta se torna uma compulsão. 
É considerado um distúrbio de personalidade. Estatisticamente cem entre mil adultos apresentam essa deformação. 
Seus portadores criam sempre histórias mais ou menos verossímeis de modo que suas mentiras sejam, na maioria das vezes, críveis. 
A medicina ainda desconhece tratamento para esse tipo de comportamento e imagina-se que ele esteja ligado a alguma falha no sistema nervoso central. 
O grave é que no dia a dia algumas vezes nos deparamos com pessoas com essa patologia, às vezes até em altos cargos da vida pública e privada. 
Uma das características é que a mentira sempre lhes favorece. Embarcam fundo no mundo fantasioso por elas criado e progressivamente não mais distinguem o real da mentira. 
Pessoas com esse perfil, quando vinculadas ao mundo político, causam profundos malefícios à sociedade. 
Como são despidas de autocrítica, imaginam-se distribuindo um manancial de vivências espetaculares que julgam somente suas e absolutamente intangíveis para os outros simples mortais. 
Estão sempre prontos a se beneficiarem de tudo e de todos, por menores que sejam as benesses, e possuem grande poder de persuasão para os menos avisados. 
Insuflados pela sede de poder levam suas viagens fantasiosas a todo tipo de megalomania. 
O pior é que as pessoas por elas governadas, confusas, também tendem a entrar nesse clima de bravatas quixotescas antes de se tornarem anestesiadas. 
As diversas mídias, inseridas no mercado de consumo, facilmente manipuladas pelas razões óbvias, acabam contribuindo para a divulgação desse mundo onírico e mentiroso. 
A história tem nos mostrado o caos em que mergulharam e continuam mergulhando povos liderados por mitômanos e por outros tipos de personalidades psicóticas. 
Para nós médicos, verdadeiros desnudadores da alma humana, fundamental para o entendimento das diversas patologias, é bem mais fácil o reconhecimento desses pobres falsários da mente. 
Isso, a bem da verdade, para aqueles que ainda se dedicam a elaborar uma boa e longa anamnese, e a um importante relacionamento médico-paciente daí decorrente. 

22 de abr de 2015

Luto na cultura, por Gabriel Novis Neves

Num mesmo dia - 13 de abril de 2015 -- a cultura mundial perdeu dois de seus expoentes mais expressivos.

Um, no Uruguai, na figura do grande filósofo, poeta, escritor, documentarista, Eduardo Galeano. 

Outro, na Alemanha, Günter Grass, cujos livros tinham sempre um contexto político. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1999 pelo seu livro “O Tambor”, de 1959 - o primeiro de uma trilogia que narra a história da ascensão do nazismo. 

Galeano, nos seus cinquenta anos de carreira, deixou inúmeras obras de vulto, tanto ficcional quanto factual. 

“As Veias Abertas da América Latina: Cinco Séculos de Pilhagem de um Continente”, livro datado de 1971, foi uma das obras mais polêmicas de Galeano. 

O livro descreve a submissão da América Latina e de suas riquezas ao colonialismo europeu no passado e, a partir do século XX, à Grã Bretanha e aos Estados Unidos. 

O atual presidente americano, Barack Obama, recebeu, em 2009, do então presidente da Venezuela, Hugo Chaves, uma cópia da obra, o que aumentou em muito a sua venda no mundo. 

As frases e pensamentos de Galeano ficaram famosos, sendo que, para mim, a definição de utopia é uma das mais inteligentes já registradas: “A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos”. 

Caminho dez passos e o horizonte dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: “Para que eu não deixe de caminhar”. 

Outra de suas frases que muito me agrada: “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”. 

Acredita-se que tenha sido o que fez, não só com o seu corpo, mas também com sua cabeça, uma das mais privilegiadas deste século. 

Günter Grass, um dos mais importantes escritores da Alemanha, foi chamado de “consciência moral da esquerda da Alemanha pós-guerra”. 

Era considerado o porta voz literário de sua geração durante a época nazista e descreve-se a si mesmo como um devoto da iluminação num momento em que a razão estava ausente. 

Recentemente, tornou-se muito polêmico ao confessar ao mundo a sua participação, aos dezessete anos, na Waffen- SS, organização nazista da época. Isso é relatado no seu livro “Descascando Cebolas”, de caráter autobiográfico.

Neste livro, Günter Grass revela um sentimento de culpa e se justifica pela pouca idade quando da sua participação na guerra junto aos nazistas.

O mesmo sentimento aparece em uma frase no seu livro “O Tambor” - “não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança” – personagem do garoto Oskar. 

“Maus Presságios” é outro livro que se revela autobiográfico e sua relação com o sentimento de culpa, lançado do Brasil em 1992. 

Em 2012 Grass publicou um panfleto com o título “O que deve ser dito”, onde apontava Israel como uma ameaça à paz mundial, pois alertava que o ocidente estava acomodado com relação ao programa nuclear daquele país. Foi considerado “persona non grata” em Israel. 

A literatura mundial está de luto. Calou-se a “voz crítica da América Latina”. Calou-se a “consciência crítica da Alemanha”.

20 de abr de 2015

Excesso, por Gabriel Novis Neves

Excesso
Os jornalistas políticos confessam que nunca foram tão bem nutridos de notícias como nesta fase de escândalos, incompetência e corrupção. 
O ridículo, que antigamente era motivo de zombaria, tornou-se a moeda do momento em nosso país. 
A estupidez atingiu os patamares mais altos da sua cotação, e o pior é que há seguidores dessa estranha seita política. 
No epicentro de tudo a tão esfarrapada desculpa de sempre: o culpado é sempre o outro diante da descoberta de um deslize de ética e das dificuldades administrativas. 
Tudo que sofremos neste momento de humilhação perante o mundo tem um culpado - o pobre Adão e sua companheira Eva. 
Foram eles os primeiros responsáveis pelas obras públicas inacabadas e superfaturadas, cobrança de impostos absurdos, salários aviltantes, desemprego em níveis preocupantes, sucateamento da educação, saúde, transporte e serviços essenciais, com a institucionalização da propina. 
Se não houver com urgência reformas no nosso sistema político, essa lengalenga virará doutrina de início de governo - dificuldades encontradas são responsabilidades do antecessor. 
Concluído o mandato constitucional tudo continuará como dantes. Pena eu tenho de Thomé de Souza, primeiro Governador Geral do Brasil e que, portanto, não teve antecessor para criticar. 
Nossos governantes são pessoas inteligentes, com estudos formais ou não, experientes em seus negócios privados, conhecedores do mundo moderno, mas, ao assumirem o governo jogam a culpa das dificuldades sempre no seu antecessor. 
Experiência para eles é igual farol de automóvel virado para trás – só ilumina o passado, no dizer do escritor e médico Pedro Nava. 
Vamos construir do caos uma nova sociedade e deixar como legado a nossa sofrida e enganada população. 
Existem bons exemplos a serem seguidos, e isso não é demérito para ninguém, muito pelo contrário. 
Nossa gente não suporta mais autópsias ao passado! 
Queremos um futuro, e menos notícias negativas!

19 de abr de 2015

Passado, por Gabriel Novis Neves

Passado 
Por indicação de um amigo “descobri” um canal de televisão, o “Arte1”. 
Confesso que após um mês de assídua audiência fiquei viciado com a programação, extremamente sedutora e bela. 
Uma boa opção de lazer! Durante horas seguidas fico assistindo aos seus espetáculos, de excelente nível cultural. 
Posso afirmar que na ocasião da “descoberta” do canal, tomei uma overdose de filmes, documentários e entrevistas com personalidades nacionais e internacionais. 
Chamou a minha atenção que o assunto sempre se referia ao passado de pessoas vivas ou falecidas recentemente. 
A Globonews exibiu também um filme sobre a vida de Simonal, com noventa minutos de duração, narrando sua ascensão profissional. Chegou a ser mais popular que Roberto Carlos e Pelé no início dos anos setenta. 
Depois, a sua queda, ostracismo e morte prematura aos sessenta e dois anos de idade. 
Fico a indagar o motivo de tanta necessidade da exaltação ao passado. 
Saudades da mocidade perdida? 
Creio que a faixa de assinantes que usufruem do encantamento desses canais de televisão é composta por pessoas mais idosas que, com certeza, ao entrarem no mundo apresentado pelo visual gratificante de um passado distante, sentem-se jovens. 
A ilusão da recuperação da época em que os problemas eram mínimos e fáceis de serem resolvidos ficam evidentes. 
Na velhice os problemas são, geralmente, mais numerosos, e suas soluções mais penosas de serem equacionadas. 
Embora apreciando essa regressão, os idosos, ainda assim, sofrem com esses shows biográficos. 
É o momento em que nos certificamos das fragilidades humanas, incompreensões, linchamentos morais, pré-julgamentos e condenações apressadas, nos dando a certeza que o homem é realmente um ser inviável. 
Nessas condições, o melhor é voltar ao passado. 

18 de abr de 2015

Valoe Intrínseco, por Valéria del Cueto

"Introjetado do sentimento geral de ser humano o  alienígena enfileira pensamentos e reflexões, desfiando perplexidades"
Valores intrinsecos
Valor instrínseco
“A vida está perdendo o sentido, no sentido que todos pensam nela. Não há ficção capaz de superar a incrível realidade que vivemos.” (Pluct Plact, da TerraBrasilis). Assim mesmo, totalmente introjetado do sentimento geral de ser humano, nosso alienígena enfileira pensamentos e reflexões desfilando perplexidades por sua tela intergaláctica. Segundo ele, “Não existem padrões, cada situação pode gerar uma nova interpretação dos parâmetros, com infinitas possibilidades distintas”. “Quase nada é o que parece ser e, daqui a pouco, perde seu significado correlato adquirindo uma conotação diversa e surpreendente”.
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM... delcueto.wordpress.com
E3- ILUSTRADO - SABADO 18- 04-2015
Edição Enock Cavalcanti


Diagramação Nei Ferraz Melo 

Maxixe, por Gabriel Novis Neves

Maxixe

Vivo o presente, pois o futuro é um prêmio, mas não esqueço o imenso legado que é o meu passado.
Pincei momentos gostosos daquilo que passou, já que no presente a cada dia recebemos uma dose de veneno das nossas autoridades maiores e, talvez, sentindo esse futuro incerto
Lembrei-me da 1ª feira livre na minha pequena cidade. O dia era seis de janeiro, de um ano do início da década de quarenta.
Chovia muito neste dia. A feira era uma grande novidade para nós. Foi montada na Avenida Generoso Ponce.
Durante os dias que precederam a inauguração do comércio na rua, só se ouvia falar na data da inauguração.
O esperado dia chegou e perguntei à minha mãe se ela não iria ao evento. A resposta foi surpreendente: - “Eu não posso deixar a casa e as crianças, mas gostaria que você fosse fazer as compras”.
Recebi como um troféu o convite e a pequena cesta feita de fibras de folhas de palmeiras para trazer os legumes e frutas comprados.
Não me recordo da quantia de réis (moeda da época) que ela me deu para as despesas.
Debaixo do guarda-chuva deixei a minha casa e em poucos minutos cheguei ao lugar festivo.
Nunca tinha visto aquelas barracas cheias de verduras, legumes, frutas, rapadura, doce de leite, farinha de mandioca, panela de barro, pau de guaraná para ser ralado, peixe do Rio Cuiabá, carne seca e até remédios da flora.
Fiquei totalmente perdido e atordoado diante de tanta gente alegre e entusiasmada, comprando um pouco de tudo que encontrava em exposição.
Impiedosamente, a chuva continuava o tempo todo e eu não conseguia comprar nada.
Quase voltando para casa, satisfeito por participar de uma conquista própria de cidade grande, resolvi adquirir algo para colocar na cesta vazia. Seria humilhante diante de tantas ofertas “passar em brancas nuvens” sem nada escolhido.
Uma barraca estava cheia de maxixe, um legume verde espinhoso muito apreciado por aqui quando feito com carne picadinha e arroz.
Enchi a cesta, pois o preço era ridiculamente barato. Ao retornar para casa minha mãe foi auditar as minhas compras e disse que tinha cumprido com distinção o meu dever, após conferir o troco do dinheiro disponibilizado para a missão.
No entanto, fez uma delicada pergunta, que guardo até hoje como uma relíquia da minha formação: - “Por que só trouxe maxixe?”.
“Era o produto mais barato da feira, mamãe”, respondi educadamente.
Ela somente sorriu com condescendência amorosa diante da minha resposta.
Mas, aquele sorriso me fez reconhecer a minha total inabilidade e incompetência para compras seletivas.
Aquela compra longínqua do maxixe me impede até hoje de frequentar shoppings e supermercados. 

16 de abr de 2015

Inventores, por Gabriel Novis Neves


Inventores 
Somos exímios “inventores dos inventados”. Poderia escrever longos artigos hilários sobre esta especialidade tão brasileira. 
Por pertencer à área da saúde pública, presto a minha homenagem à nossa grande invenção, que foi a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), o maior e mais perfeito plano de saúde do mundo, no dizer de um ex-presidente da República. 
Sem a menor cerimônia, nos apropriamos de um modelo inglês de atendimento médico de abrangência universal e gratuito. 
Esquecemos, porém, de um pequeno detalhe ao implantarmos este tipo de sistema por aqui: faltou importar os ingleses. 
Parece jocosa a colocação, mas, a realidade, é que somos preconceituosos. A classe média não aceita ser tratada como pobre, e o SUS original propõe atendimento médico igual para todos. 
O SUS é visto por nós como um plano de saúde para atender a população carente, e a classe média tem repulsa em ser tratada como tal, embora viva necessidades na saúde, educação, emprego, segurança e transporte. 
Surgiram então os tais planos de saúde privados para atender a sempre crescente demanda desse segmento social. 
Na visão caolha desta decadente sociedade de consumo, o plano de saúde privado é visto como sinal de status social, como a aquisição de um celular pré-pago. 
Certos planos de saúde vendem malandragem e esperteza, fazendo o iludido usuário mofar nas longas filas de espera para marcar uma simples consulta ambulatorial, demonstrando assim ao incauto a pobreza dos seus direitos. 
Com a recessão econômica que acometeu há quatro anos o nosso país, causada pelos “inimigos internos”, há uma forte migração para o SUS, totalmente desestruturado. 
Consultas básicas ainda são realizadas gratuitamente em Centros de Saúde e nas moderníssimas UPAS (Unidades de Pronto Atendimento e Assistencial), sendo este espaço ocupado, basicamente, por gestantes, crianças e idosos. 
Uma modernização por parte do governo na agenda das consultas nos PSFs e serviços auxiliares, fará com que grande parte da população perceba o equívoco do desperdício de dinheiro com um plano de saúde privado e passe a se utilizar do SUS. 
Combateremos o preconceito contra os pobres e ampliaremos a oportunidade de um bom atendimento médico para todos. 
Vontade política é o gatilho a ser apertado neste “início de governo de novas mudanças”.

15 de abr de 2015

Rir e chorar, por Gabriel Novis Neves

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Rir e chorar 
Na espécie animal os humanos são os únicos seres que nascem com a capacidade de rir e de chorar. Melhor dizendo: somos os únicos que vertemos lágrimas e gargalhamos. 
Pena que não possamos usar como deveríamos essas duas válvulas de escape e de equilíbrio emocional. 
As regras que regem o nosso comportamento em público são ditadas pela sociedade em que vivemos, e elas cerceiam a nossa espontaneidade de rir e chorar em qualquer lugar ou a qualquer hora. 
Uma cultura arcaica, mas que vem se prolongando através dos anos, nos ensina que a sisudez é sinal de confiabilidade e bons modos e que o choro é sinal de fragilidade. 
Somos condicionados desde os primeiros anos de vida a abafar todo e qualquer sentimento mais forte.  Para o gênero masculino então!, é absolutamente vedada a manifestação pública de fraqueza causada pelo choro. 
As mulheres, consideradas historicamente como histéricas, foram um pouco mais liberadas nesse quesito. Elas, com coragem e destemor, choram sem nenhum constrangimento. Dominam como ninguém a arte de chorar em público. 
No entanto, as mulheres são muito mais cobradas socialmente no tocante às gargalhadas escancaradas, sempre consideradas vulgares. 
Séculos e séculos se passaram e as coisas não mudaram muito nesse sentido. 
Mulheres gargalhantes ainda transmitem, em algumas rodas, a sensação de promiscuidade.  Homens chorões a de afeminados. 
Diante desse quadro obsoleto, reprimimos o que há de mais eficiente para o equilíbrio emocional, exatamente o chorar e o rir. Essa é a maneira de como deveria se processar a nossa catarse no cotidiano. 
Quem nunca experimentou o imenso alívio que o mergulho intenso no pranto consegue trazer em momentos de grande infelicidade? É como se saíssemos totalmente renovados do fundo de um poço. 
O mesmo acontece com a gargalhada escancarada, quase pornográfica, também difícil de ser retirada do baú das hipocrisias da vida. 
Após estudos científicos na área da neurologia, atualmente sabemos que ambos os estados liberam enzimas importantes para o nosso equilíbrio físico e mental e, tal como em outras repressões, se transformam em danos irreversíveis se não liberadas.  
Nós que vivemos em países do futuro, ainda não prontos, temos obrigação de vivenciar o riso e o choro para que possamos nos manter razoavelmente saudáveis diante das instabilidades corriqueiras a que somos submetidos nesses quinhentos anos de baixos, mais que de altos. 
Isso talvez explique a necessidade de festas populares, a exemplo do Carnaval, com toda a sua alegria fabricada pela ausência de alguns dias de repressão. 
Felizmente a nossa raça miscigenada tem muito da ingenuidade da criança, conseguindo assim extravasar os seus sentimentos de uma forma mais livre.
O mesmo se aplica a todas as outras repressões, inclusive a mais doentia, a sexual, com as quais lidamos bem melhor que os países ditos desenvolvidos. 
Sorte nossa, porque nesses quinhentos anos de desencontros e desmandos, não fossem essas nossas características mais primitivas seríamos o maior conglomerado de neuróticos da face da Terra. 
Por uma dessas ironias do destino, essa alienação generalizada é o que nos salva, ao mesmo tempo em que nos condena.

14 de abr de 2015

Águas de março, por Gabriel Novis Neves


Águas de março 
Diante de tanta sujeira ética acumulada neste início de ano, São Pedro resolveu ajudar na limpeza dos desvios de comportamento dos nossos políticos e agentes com o erário público e abriu todas as torneiras do céu sobre Cuiabá.
De há muito não via tanta água caindo como nestes últimos dias de março.
Também pudera!
Com o avanço dos depoimentos do pessoal do Lava-Jato no Paraná, com o anunciado estouro na Caixa Econômica Federal nos recursos do programa social “Minha Casa, Minha Vida”, com os escândalos no BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e outras estatais, só poderia mesmo chover muito sobre todos nós.
Como o Brasil não é um país sério, no momento em que o poder Executivo conclama a população a ter paciência para as amargas medidas do reajuste fiscal recomendadas pelo Ministro da Fazenda, nossos representantes na Câmara Federal, no maior cinismo, aprovam o aumento da verba para o Fundo Partidário!
Impossível para um simples mortal entender tanto descaso e descompromisso com o clamor das ruas!
A desmoralização do Congresso Nacional atingiu seu ponto máximo quando os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados tiveram seus nomes relacionados para investigação no escândalo da Petrobras.
A chuvarada de São Pedro é um aviso cifrado da condenação lá de cima.
Pena que são as últimas águas de março anunciando a chegada do outono, onde a natureza chora para se renovar na primavera.
Poderíamos tão bem aproveitar essa lição e aplicar seus ensinamentos para uma transformação de condutas públicas que favoreçam nossa população, especialmente a mais carente!