Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

25 de jul de 2016

O silêncio que antecede, de Valéria del Cueto

M Amanhã 160225 015 Museu do Amanhã globo vitroO silêncio que antecede

Texto e foto de Valéria del Cueto
Estou no meio da festa que vai começar. Numa posição, cá entre nós, privilegiada. Depois do Rio dos Jogos  Pan Americano, da Copa do Brasil, vem aí a Olimpíada carioca.
E vou aproveitar. Pretendo não analisar, apenas registrar a vida onde sempre vivi. Como essa cidade tão cheia de contradições, chamada de maravilhosa, abriga e acolhe os visitantes de todas as partes do mundo.
Foi na Copa do Mundo de Futebol de 2014 que a brincadeira tomou um formato, como explicado na época na crônica “Sem dizer adeus” Lá, a hashtag era #Copa2014bacana. Teve o #justbefore, mostrando Copacabana nos dias que antecederam o início da competição, o #justnow, a temporada de jogos e o #justafter, com o desmonte dos equipamentos e o retorno à normalidade. Todo o material fotográfico, em vídeo e links de outros veículos de comunicação foram agrupados numa linha do tempo, publicada no http://storify.com/delcueto/copa2014bacana
Repito a proposta no #valeRio2016. É a mesma ideia partindo de outra ponta, não mais da do Leme, que começa a ser realizada. Agora Copacabana não será o único foco. A ponta de partida é a do Arpoador, com saída para Ipanema e a perspectiva do posto 6, no final de Copacabana. O arco foi ampliado, incluindo o centro da cidade. Mais especificamente a Orla Conde,  um novo espaço urbano do Rio, onde serão realizadas as atividades que agitaram fun fest montado em Copacabana durante o Mundial de Futebol, em 2014.
Uma intensa e variada programação cultural ocupará o espaço e os palcos distribuídos entre os Museus do Mar e do Amanhã, na Praça Mauá, e a Praça XV. Além de apresentar ao mundo as intervenções de recuperação da área, incluindo a demolição da Perimetral, outra vantagem do lugar é não ter problemas em relação ao barulho das festas e shows. A zoeira causou transtorno aos moradores de Copacabana no evento de 2014. A região da Orla Conde é área comercial. E o lugar é lindo...
O Rio dos carnavais, dos réveillons, do Pan e da Copa, certamente saberá receber seus convidados. Falo no que depender do carioca. O que parece não ser muito na Babel que se instalará por aqui.
Não, não pretendo frequentar as arenas dos jogos. O  credenciamento no Rio Media Center facilita o acesso aos espaços gerenciados pela prefeitura. Está bom demais. Verei os jogos em casa, ou nos telões. Se sou fissurada por esportes, imagine as Olimpíadas.
A primeira que lembro ouvir falar, pitoquinha ainda, é a da Cidade do México. José Sylvio Fiolo ficou em quarto lugar nos 100 metros de peito. Anos depois, treinei por um tempinho com seu técnico, o Pavel, no Botafogo. Na de Munique foi a vez de Mark Spitz com seus recordes mundiais e medalhas de ouro em 7 provas de natação  me fisgar de vez. Chorei com Misha na despedida de Moscou...
As Olimpíadas acontecem sempre em anos de campanhas políticas. Eleições de prefeitos e vereadores. Costumo estar trabalhando. Em 1988 e 2000 e 2008, dei um jeito de trabalhar no turno da madrugada, para poder acompanhar as competições dos jogos de Seul, Sidney e Pequim, respectivamente.
Não, não terei tempo para correr de um complexo para o outro e ainda me concentrar no entorno, no encontro dos povos. É nele que pretendo focar minhas lentes.
E quero faze-lo com o meu melhor olhar! Como, imagino, estejam nesse momento os olhares dos atletas que competirão no Rio, a Cidade Maravilhosa. Voltados para a perfeição dos movimentos, para o auge de suas performances. Se possível, para a vitória. Pensamento positivo, energia acumulada, concentração e foco.
Eles não querem saber das notícias, especialmente as negativas. Nada que interrompa ou altere o percurso em direção ao objetivo almejado por tanto tempo certamente com sacrifícios e entrega.
Que os Deuses do Olimpo nos abençoem!
Links dos ensaios
  • #valeRio2016 - A Olimpíada do @Rio2016 vista da Ponta do Arpoador.
  • #copa2014bacana - Visão da Ponta do epicentro do futebol mundial: do Leme, a Copa
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim...

18 de jul de 2016

Morro do Paxixi, por Valéria del Cueto

Aquidauan 160524 040 Paxixi geral panorama bruma

Morro do Paxixi

Texto e foto de Valéria del Cueto
Ainda falta falar de algumas coisas do meu belo Mato Grosso, o do Sul. Então, vou começar pelo princípio.
A partida foi promissora. Subindo, num final de tarde, o Morro do Paxixi, na ponta da serra de Maracaju. Tração nas quatro rodas, o sol desenhando as margens da estradinha de chão...
Os “ais” e “uis” nas curvas da estradinha sinuosa de Rosely, sogra do Carlão, o Dr. Carlos Nunez, promotor da expedição que tomou o rumo de Camisão, distrito de Aquidauana, eram justificados.  Imagine algo do tipo a borda da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, com acesso beeem precário. Antes da subidona, uma bifurcação, um ou outro boteco, algumas casas e chácaras. Quanto mais alto, mais espaço. As grandes fazendas no topo do platô, invisível para quem olha lá de baixo.
Para não dizer que foi tudo perfeito, subimos tarde! Nessa época do ano o dia acaba cedo e o sol baixa rapidamente... A sombrinha de agora virava rapidamente  a luz insuficiente e muito baixa, diminuindo a diversidade de bons registros.
O Paxixi é o tipo de lugar quase inesgotável quando se pensa em sombra, luz e drama. Mesmo parado em um único local as possibilidades são infindáveis em tentativas de registro em horas variadas do dia e com as variações da posição do sol ao longo do ano. Mudam as cores, os tons e a incidência de luz. Uma festa!
A subida quase foi mal sucedida. Lá pelas alturas encontramos a picada fechada por um trator e caminhões. Era um mutirão de alguns proprietários para recuperar o traçado castigado pelas chuvas, provocando crateras, muita erosão e invadido pela vegetação exuberante nas laterais.
A necessidade de aplainar e limpar a rota se baseava também na impossibilidade de saber, numa manobra para evitar maiores danos aos amortecedores castigados pela buraqueira, se o mato escondia um trecho transitável ou camuflava um despenhadeiro na franja da morraria. Se fosse necessário dar meia volta, teria que ser de ré até um lugar que permitisse a manobra de retorno.
Fomos salvos pela gentileza dos peões e motoristas que retrocederam morro acima as máquinas para nos permitir prosseguir na aventura.
Mais um tempinho perdido e o sol baixando em meio a uma leve bruma que começava emoldurar as áreas mais baixas. Passamos pelo leito seco de pedras de um riacho e, firmando a marcha ladeira acima, fomos passando por porteiras até que o topo do maciço se descortinasse a perder de vista iluminado pelo sol da tarde.
Na direção das antenas receptoras, avistadas da estrada que liga Campo Grande a Aquidauana, encontramos topógrafos e engenheiros, próximos das áreas cercadas e cadeadas dos equipamentos.
O que poderia ser uma decepção pela ausência, provocada pela cerca de arrame, da vista do alto do platô acabou virando uma caçada fotográfica a seriema que resolveu passear perto do aramado.
Me senti em sintonia com o local e aa natureza, enquanto tentava, mansamente, me aproximar da musa inspiradora da música que ia usando como forma de diálogo, tentando fotografá-la:
“Oh! Seriema de Mato Grosso,
teu canto triste me faz lembrar,
aqueles tempos que viajava,
tenho saudades do seu cantar.
Maracaju, Ponta Porã,
quero voltar...”
Registro feito, papo batido e era hora de descer a ladeira, antes que escurecesse de vez.
Por um momento, tolinha, achei que aquela tinha sido um sinal de boas vindas para o que ainda veria de natureza na viagem pelo Mato Grosso do Sul.
Ledo engano. Foi, sim, um presente de despedida. A partir desse dia, o tempo virou de um jeito! Tudo cinza, chuva e frio. Tive que desfazer meus planos, agradecer a boa sorte dos registros feitos e viajar num outro sentido: o literário, como você já sabe pelos outros textos dessa saga pantaneira.
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim...
Seriema (Mário Zan – Nhô Pai)


16 de jul de 2016

#ValeRio2016 @no_rumo da @Rio2016


Tribuneiros.

Considerando que o Rio de Janeiro será a sede dos Jogos Olímpicos é daqui que passo a "transmitir" apresentando o novo ensaio fotográfico em produção: #valeRio2016.

O raid pela orla carioca no período pré, em e pós Olimpíada do Rio de Janeiro, nos moldes do que realizei - e o Tribuna acompanhou - da Copa de 2014, o #Copa2014bacana.

As últimas do ensaio estarão nesta postagem e no mural do Tribuna de Uruguaiana, a sua direita.
Tem mais em @no_rumo do Sem Fim.
Clique AQUI conferir.

Valéria del Cueto





8 de jul de 2016

Outras memórias pantaneiras, por Valéria del Cueto

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Outras memórias pantaneiras

Texto e foto de Valéria del Cueto
Perdi as palavras diante dos sentimentos. Muitos. Profundos. Emocionantes.
Até especialistas em se expressar, coisa que sempre busquei nas mais diferentes “mídias”, se calam quando tudo é pouco diante dos fatos e os diversos graus de sensações que provocam.
Voltei ao meu belo Mato Grosso, aquele de antigamente, ainda sem divisão geográfica. E os tempos queridos, acreditem, os que não voltam nunca mais, estavam lá.
O pé de cedro havia crescido e dado novas ramificações. Encontrei o pequeno arbusto cheio galhos e de raízes crescidos no tempo em que distantes vivi, amei e, claro, também sofri.
Todos nós nos transformamos...
Sua sombra amiga me acolheu e protegeu, me mostrou seus frutos (cedro dá que tipo de frutos? Sei lá...)
E nada do que imaginava para essa jornada aconteceu como planejei. Tudo foi mais.
Mais tempo nublado e chuvas, o que não seria problema se não fosse a duração quase permanente, o que gerou menos imagens reais como pássaros, animais e exuberância natural na região pantaneira.
Isso me empurrou para os livros que levaram a imagens de outros tempos mais, muito mais antigos. Voltei à Guerra do Paraguay.
Aos encontros e desencontros dos pioneiros que entre batalhas, muito trabalho bruto, longas esperas e amores povoaram o baixo Pantanal e a fronteira entre Corumbá e Ponta Porã.
Se pouco soube de Solano, o invasor paraguaio, li a respeito de Raphaela Lopes, sua irmã, que se casou com o interventor designado pelo Império Brasileiroe a saga da vinda da família Pedra para a região. Sou quase um deles. Além dos netos de Pompílio, agora, “colada” com mais duas gerações.
Quando, finalmente, o tempo permitiu que começasse a fotografar já estava encharcada pela água dessa fonte de lembranças expandida com a ajuda de informações e indicações de como lidar com um baú de comitiva repleto de imagens e referências.
Tudo veio pra mim. Primeiro na Casa Candia, de dona Jandira, em Anastácio. Depois na Selaria Renascer, do seo Jairo, em Aquidauana. Nos dois lugares tive direito a um “Guia Lopes” para me conduzir pelas macegas de objetos emblemáticos, ícones das narrativas que havia devorado nos livros.
Isso em meio a uma outra guerra que acontecia na vizinhança. Sangrenta, sem tréguas. Cinematográfica. Em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero a disputa pelo poder do tráfico se desenrolava nas ruas. Registradas por câmeras de vídeo dos celulares e disseminadas pelas redes sociais. A violência da fronteira evoluiu, como quase tudo em volta, mantendo sua essência.
Os últimos dias da viagem me levaram a Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, à celebração das novas gerações da família, continuação dessa estirpe que vem lá de trás.
Pais, avós, filhos, netos, numa alegre confusão, em comunhão com a vida, independente dos percalços e diferenças. Esperança!
Tudo ao seu tempo - não conforme meus planos (como sempre)-, acabou acontecendo.
Na última manhã da viagem, o ciclo se completou com a ajuda de Osana. Foi ela que me indicou nos jardins onde seria o desfile da passarada: tucanos, curicacas, beija-flores... Vieram para a despedida!
Um até logo cheio de gratidão de minha parte, emoldurado pelo sorriso que não tem preço de uma das queridas matriarcas da família, que não nega seu sobrenome: Pedra!
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim...

3 de jul de 2016

Mala de Garupa, por Valéria del Cueto

AquidSela 160616 012Mala de garupa

Texto e foto de Valéria del Cueto
Passei pela frente da Selaria Renascer, na rua Dr. Sabino, no Bairro Alto, algumas vezes. Naquelas horas em que, numa cidade nova a gente busca referências para tentar se localizar.
Havia muitas outras selarias na cidade. Afinal, estava numa região cercada de fazendas com características de lida com muito gado e cavalos.
Mas aquela construção numa rua tranquila, parede com parede com a loja de roupas novas e usadas, atraindo a atenção pelos casacos de frio expostos nos manequins e, do outro lado, a casa mais para o fundo do terreno, uma árvore enorme na frente e a carroceria velha de caminhão, com o nome da cidade AQUIDAUANA, pintado na madeira, jogado ali, na vertical, havia prendido minha atenção.
Na frente, arreios e outros adereços pendurados na parede e no telhado do puxado da varanda. A mureta no pé da árvore ao lado usada como apoio para o copo de alumínio, a bomba e a térmica do tereré. A parte voltada para rua servindo de expositor para o pelego e as botinas, mostrando o trabalho. O laço pendurado num galho.
Nas duas portas da loja a confusão se derrama pela calçada, conforme a necessidade do serviço de selaria e sapataria solicitado pelos clientes fiéis.
Me identifiquei. Descobri que o lugar do meu desejo ficava em frente da casa de Roseli, mãe de Rosanie, sogra do Dr. Carlos Nunez, e companheira de tardes cinzentas de cafés e histórias, inclusive dos antigos Pavilhões, um tipo de circo só com peças teatrais e cantorias que viajavam pela região antigamente.
Na segunda passada parti para a tarefa necessária de pedir autorização para fotografar o local. Não sem antes esclarecer para seo Jairo que não, não tinha intenção de cobrar nada para desvendar em imagens os segredos de seus 61 anos.
“Nasci em cima dos couros. Aprendi a profissão vendo meu pai. Ele trabalhava numa fazenda e, quando se machucou, começou a lidar com couro”.
A história veio junto com tesouros que ele foi tirando dos fundos do estabelecimento. Diz a “Vizinha”, como Roseli chama sua mulher, que faz tempo desistiu de arrumar a oficina, onde sua entrada “é indesejável, graças a Deus”.
Começou com a ponta de uma zagaia “usada para matar onça”. Veio a máquina de costurar de antigamente, a ferradura de ferro “hoje são mais finas, de alumínio”, a guaiaca velha que o peão pediu para ser copiada, “mas se aposentou antes da execução do serviço e, aí, pra que guaiaca?”, o entalhe em madeira do preto velho, o berrante e o baú de uma antiga comitiva.
“Só não tranço o couro. Antes, até curtia”. Primeiro com angico. Aí, reclamaram do problema ambiental. “Besteira, a gente não corta a mata, só usa a casca”, observa. “Daí passei para o tanino. Desisti com os problemas e a burocracia para documentar a atividade”.
A Vizinha fala com saudades da antiga Festa Pantaneira de Aquidauana, onde passavam dias acampados recebendo encomendas e mostrando a excelência do trabalho que sustentou a criação de seis filhos, “três com a mulher”...
Hoje, não vale mais a pena fazer produtos para vender, como botinas. O custo da mão de obra inviabiliza esta forma de negócio. “Agora, é mais encomenda”.
E foi de encomenda, prontamente atendida, que as mãos ágeis de Seo Jairo Soares Arguelho, além de trazerem do fundo da oficina suas melhores lembranças para o ensaio fotográfico da selaria, também repararam minha moderna mala de viagem, descosturada no vai-e-vem dos aeroportos da vida. Em cada ponto, uma história, um mergulho na mala de garupa da vida de um artesão aquidauanense e seu cotidiano pantaneiro...      
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim...

18 de jun de 2016

Armazém, empório e mercearia

Anastácio 160603 024Armazém, empório e mercearia

Texto e foto de Valéria del Cueto
Viajo para o oeste e retrocedo a um tempo antes do meu próprio por lá, ao transpor as porta da Casa Ca11ndia, em Anastácio, Mato Grosso do Sul.
Sou recebida com um sorriso de boas vindas por sua proprietária Jandira Trindade, filha de um antigo funcionário que virou sócio dos italianos fundadores do estabelecimento, e cronista de “O Pantaneiro”, jornal de Aquidauana. Um outro lado do rio, como Cuiabá e Várzea Grande.
Chego lá vindo um pouco de antes, de acontecimentos ocorridos na segunda metade do século XIX. Andava mergulhada nos antigos costumes da região, devorando o livro do belavistense Samuel Xavier Medeiros “Senhorinha Barbosa Lopes, uma história da resistência feminina na Guerra do Paraguai”, narrativa da incrível saga de da mulher de Guia Lopes, herói civil dos trágicos eventos ocorridos na desastrada ofensiva norte da Guerra do Paraguai, imortalizados no livro de Visconde de Taunay, “A Retirada da Laguna”.
Tirando as embalagens dos produtos básicos expostos nas prateleiras que se modernizaram, o restante permanece como antigamente. Ao subir os degraus da entrada do imponente armazém e pisar no mosaico de  ladrilho hidráulicos original da parte da frente do prédio da Travessa Ragalzzi, beira do rio Aquidauana, a sensação de entrar num outro mundo se completa.
O mobiliário: prateleiras, balcões e expositores de madeira remetem aos tempos em que, como rememora Jandira, as carroças eram estacionadas no amplo pátio lateral (agora cercado por muros) e os cavalos levados para serem tratados e alimentados, enquanto as listas de mantimentos iam sendo providenciadas, separadas e embaladas para as longas viagens de volta às fazendas da região pantaneira.
No livro de anotações do armazém, empório e mercearia, cuidadosamente preservado, a primeira anotação é de 1 de fevereiro de 1908! O grande diário de capa verde  funcionava, mais ou menos, como as cadernetas utilizadas nas casas de produtos carnavalescos cariocas que contabilizam os gastos efetuados até que os compradores possam honrar seus compromissos.
Esta primeira sala é apenas o começo da viagem exploratória. Entrar no depósito principal ao fundo, ainda mais antigo, aprofunda o mergulho na história, embalado ao som do antigo rádio de um funcionário que toca uma polca em guarani. Fotografo cantarolando... Por suas dimensões é possível ter uma vaga ideia da quantidade de produtos necessários para abastecer as grandes propriedades da região. Jandira me conta que  era necessário trazer as mercadorias de longe e estocá-las por mais tempo para atender a clientela. Agora, com a facilidade das estradas e da distribuição, é possível aumentar os estoques apenas na época em que se fazem as grandes compras do mês.
Acho que meu interesse pela música, enquanto reproduzia as antigas fotos que mostram os fundadores do estabelecimento e comprovam a autenticidade do que lá existe hoje, preservado em sua totalidade, fez com que arrumasse mais um aliado na exploração do lugar.
José Antônio Loureiro foi me apresentando a outras preciosidades, como as antigas balanças, o galpão onde se armazenava o sal, produto essencial para o gado, o  poço no fundo do terreno e o local das bilhas de água, onde se costuma matear, tomando a bebida típica da região, o tereré. Enquanto passeamos pelos edifícios, descubro que ele é de Bela Vista e dia 1 de junho fez 39 anos que ele trabalha na Casa Candia...
Voltamos ao pátio de carregar os mantimentos, primeiro nas carroças, depois nos jipões e, agora, em veículos modernos, enquanto faço registros de tudo que vejo. Jandira aguarda pacientemente meu regresso, conversando com meu guia na viagem ao passado, o professor Fernando Pace, amigo dos tempos de Cuiabá.
Para confirmar tradicional gentileza da acolhida sul mato-grossense não saio de mãos abanando. Ganhei um pacote da farinha de mandioca da região, um delicado guardanapo de bandeja bordado pelas mãos habilidosas de dona Jandira e muitas e deliciosas histórias para contar a vocês, meus leitores de aventuras e crônicas.
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim...

14 de mai de 2016

Movimento ímpar, por Valéria del Cueto

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Texto e foto de Valéria del Cueto
Preguiça de tudo. Por essa Pluct plact não esperava. Para ele, preguiça é assim como saudade, aquela palavra que só existe em português e que castiga a gente, uma coisa incompreensível.
Lia sobre preguiça. Imaginava a preguiça. Viu imagens do animal e seus lentos movimentos. Saber mesmo o que é preguiça isso, confessava, não sabia.
Não antes de bater por esses costados, num perdido interplanetário quando, no seu voo do nada para o lugar comum, caiu aos trambolhões na realidade. Ou seja, aqui bem ao seu lado. Está vendo? Olhe em volta. Ainda não? Preste atenção...
Pois ele, o extra terrestre, está te observando, registrando suas reações e movimentos. Faz parte da sua missão inicial.
Digo inicial porque com o passar do tempo e de suas tentativas infrutíferas de voltar ao espaço sideral, preso que está em nossa atmosfera sem força propulsora, outras prioridades foram surgindo.
De lá pra cá já muita água rolou debaixo da ponte, ele teve oportunidade de encher seus bancos de dados com informações e explorar outras áreas de interesse e sentimentos.
Isso. Mesmo. A lealdade à cronista faz parte deste, vamos chamar assim, aprendizado. Ao se tornar o outro lado de seu telefone sem fio, aceitou a nobre missão de mantê-la conectada de alguma forma com a realidade que não a cerca por opção própria de isolamento.
Atravessou momentos difíceis, ao ver os olhos de incredulidade de sua não tão ávida ouvinte diante de alguns informes repassados nesse já longo período. Mas, como se impôs a tarefa e não é de interromper missão estabelecida, cá está ele!
Com a preguiça, muita preguiça, a prima irmã da indecifrável saudade, atacando todos os seus aguçados sentidos. Transformando a sua narrativa num melhor não contar de encheção de linguiça.
Tudo para que a saudade não domine sua já combalida e cada vez mais decidida escriba, fazendo com que se encolha e refugie no canto mais escuro de sua cela.
Não, não temos mais uma presidente que queria ser enta. Perdeu o rumo por falta de destreza ciclística fiscal. Por bater de frente com outros componentes de sua valorosa equipe. Não teve discussão quando o Congresso Nacional puxou o cartão vermelho e a mandou para o banco. Dos réus do tribunal político, de castigo no Alvorada por 180 dias.
Perdeu, Brasil, sua presidente mulher. Nunca antes na história desse país, se confirmou com tanta eficiência a velha máxima que diz que é melhor não botar a mão em eleição de casa de marimbondo federal.
Foi demais para ela, que passou para seu vice do partido MDB, a condução dos destinos da nossa combalida pátria amada, tão deseducada.
Pluct, Plact tinha dificuldade de ordenar e transmitir a mensagem. Não entendia devidamente os processos. Deu um pulo até Brasília para trazer notícias fresquinhas. Viu ao vivo e a cores a longa noite no Senado Federal.
Agora está tudo ótimo! Temos dois presidentes no país. A afastada e o em exercício.
Nada mudou. Cargos de ministros sendo usados como capa protetora contra as garras da justiça. Alguns possíveis indiciados nem precisaram sair. Afinal, compadreio é compadreio e antes uma boa parte dos cargos do governo federal já era ocupada por seu maior aliado. A limpa será direcionada.
Encolher, isso encolheu. Foi uma lipo localizada. Juntou as representações sociais e, pelo sim, pelo não, fundiu o Ministério da Educação com o da Cultura. Tipo a ordem e o progresso. A fome e a vontade de comer.
Barriguinha cheia, hora do quilo, por que não fi-lo.
Depois, não sabem de onde vem a preguiça, esse movimento ímpar de não fazer nada...
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim...

9 de mai de 2016

Pingado federal, por Valéria del Cueto

Texto e foto de Valéria del Cueto
Pingado é café com leite. Além de ser aquela mistura particular e intransferível de um pouco de café e muito leite, ou vice versa, no balcão do botequim.  Dizem que também é, nas brincadeiras infantis, aquele que não está na roda pra valer, faz só figuração. Fica lá no meio, vendo a bola passar de um lado pro outro, o pegador correndo atrás dos seus amigos...
Estamos, agora, com uma nova categoria política, que já se alastra e se apresenta no executivo e no legislativo. São os presidentes pingados. Dilma e, finalmente, Cunha. Tudo café com leite. Usam casas no tabuleiro do jogo, com direito a liturgia e rapapés. Mas de verdade não tem mais voz ativa.
Esse é o quadro atual e, como tudo, pode mudar ali na frente. Cunha deve ir cuidar de suas numerosas defesas em diversos processos. Caiu meio sem ter tempo de respirar (por incrível que pareça) numa ação espetacular dentro do Supremo. Recebeu a notificação em casa, antes das 8 da matina. Um climão.
Foi pego de surpresa nas malhas de uma representação antiga do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. A acusação de usar o cargo para intimidar pessoas e atrasar a operação Lava Jato estava aninhada no colo do ministro Teori Zavascki desde dezembro. Deu liminar e unanimidade entre os ministros do pleno do Supremo Tribunal Federal em questão de horas.   
O agora ex-presidente fez seu papel no momento, mas já avisou que há mais coisas entre a Presidência da Câmara dos Deputados e as barras dos tribunais do Supremo, ou quem sabe, do Juiz Sérgio Moro (onde já estão na fila mulher e filha aguardando o desenrolar de alguma fase da operação Lava Jato) do que supõe não apenas a filosofia, mas outras ciências. Exatas, humanas ou exotéricas.
Dilma, lá pelo Alvorada, verifica suas possibilidades de deslocamento nos seus dias de julgamento no Senado Federal e manda ver no “entra e sai” do Diário Oficial. E inaugurou Belo Monte... Danada!
Avalia-se quem saiu ganhando na queda de braço dos presidentes tentando definir quem chegou primeiro ao castigo. Mais importante será verificar quem terá parceiros, amigos e plateia nos conturbados dias que estão por vir.
Já o ainda vice Michel Temer precisa mostrar serviço e agradar a muitas correntes e vertentes. E a base... Ah, a base. Faz seu papel de sempre, sem notar que o modus operandi atual é carta marcada para o fracasso nacional. O sacode que começou no topo da pirâmide tem que se expandir para as instâncias inferiores. Parece que ainda tem gente que não entendeu que a banda não vai mais poder tocar na cadência atual.
Falando em cadência, agora, além de música, é lei, sancionada pelo Senado, o ensino de artes visuais, dança e teatro. Vamos esperar pra ver cumprir...
Aí, ela reagiu! Só nos últimos parágrafos da crônica Pluct Plact, o extraterrestre, conseguiu uma reação, no caso, a sonora gargalhada da amiga encarcerada e quase catatônica de tédio diante das extraordinárias novidades narradas.
Riu por lembrar como comemorou e acreditou quando a obrigatoriedade de música nas escolas virou lei, anos atrás. E nada aconteceu... A única música que a educação toca é a das moedas nos bolsos dos que se corrompem para roubar do ensino público de um país tão sem educação. Em São Paulo é na merenda. Em Mato Grosso, na construção de escolas! Crimes hediondos...
Só rindo, pra nãos chorar ao receber uma última informação do viajante intergaláctico enguiçado por aqui. A de que o Motosserra de Ouro, Blairo Maggi, mais uma vez, era o cara para o Ministério da Agricultura. Devendo se filiar ao PP, após ter debutado no PPS, passado no PR e ter sido um quase membro do PMDB! Desistiu do partido do vice jurando que ficaria no PR até as eleições de 2016.
“Não, não fui eu!”, garante a cronista, sob o olhar sideral de um Pluct, Plact desolado. “Pode espalhar por aí!”
E ele obedeceu, pingando a negativa por aí...  
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim...

24 de abr de 2016

Ressaca, por Valéria del Cueto

Arpoador 160423 031 Paredão dourado estaca onda aberta rampa pedras
Um ângulo inusitado do paredão do Arpoador. Sol caindo, sem a faixa de areia, a água molhando a pedra e dando um brilho diferente. As ondas "desenhando" no paredão.
Em algumas fotos a referência é um buraco e a dança das texturas do mar ao bater na parede. Em outras a rampa que, no momento, liga a calçada ao nada e serve de cenários para fotos dos turistas que aproveitam o espetáculo do final de tarde no canto da Praia de Ipanema.
É  maré alta e ressaca em dia de lua cheia no Rio de Janeiro, Brasil em 23 de abril de 2016
Clique para ver o ensaio fotográfico  completo de  Valéria del Cueto @no_rumo do Sem Fim…
Explore também Ressaca no Arpoador com fotos de outros Ãngulos e com uma luz de outro horário e leia Onda que leva, traz
Os vídeos do fenômeno estão no playlist Ressaca de abril do canal del Cueto
http://www.youtube.com/playlist?list=PLNVGym3VNemDZYITdMww_TAOCV2M1DfbJ
@delcueto no Flickr
No instagram @valeriadelcueto